Ainda tento processar a estranheza dos últimos dias, como se uma névoa densa, típica daquela serra, tivesse se instalado na minha consciência e se recusasse a dissipar. O protagonista dessa inquietação é alguém que, até o fim de semana retrasado, ocupava o posto de arqui-inimigo no escritório. O Ricardo. Aquele colega de trabalho cuja presença parecia um ruído constante de fundo, um sujeito que insiste em pontuar cada frase com exclamações efervescentes e que utiliza termos corporativos como sinergia com uma seriedade quase religiosa. Eu o evitava como se evita um erro de digitação num relatório importante.
A empresa, em sua sabedoria duvidosa, decidiu que um retiro corporativo em Campos do Jordão era exatamente o que precisávamos para fortalecer os laços da equipe. Eu fui arrastada, movida por aquela obrigação profissional que pesa mais do que deveria. O hotel era um refúgio de madeira e pedra, cercado pelo frio cortante da montanha, um cenário que convida ao recolhimento e, paradoxalmente, à revelação de segredos que costumamos manter guardados atrás de planilhas de excel.
Na noite de sábado, após um jantar que se estendeu mais do que o previsto, encontrei o Ricardo no bar do hotel. Todos os outros já haviam se retirado, vencidos pelo cansaço ou pela diplomacia das confraternizações forçadas. Restávamos apenas nós dois, rodeados por poltronas de couro e o calor de uma lareira que estalava baixinho. Estávamos imersos numa discussão sobre o futuro incerto da nossa empresa, um tema técnico que, sob a influência daquela altitude e de duas taças generosas de vinho quente, começou a perder o rigor corporativo para ganhar nuances muito mais humanas.
Observei-o enquanto ele falava. Sem a luz artificial e fria do escritório, o rosto dele parecia diferente. Havia uma suavidade que eu nunca tinha me dado ao trabalho de notar, um brilho nos olhos que não era apenas o reflexo do fogo. Ele deixou de lado as expressões vazias de gestão e passou a falar com uma lucidez desconcertante, revelando medos e aspirações que eu, em minha arrogância, jamais imaginaria pertencerem a alguém que usa exclamações em excesso. O vinho quente, especiado e reconfortante, parecia dissolver as barreiras que eu tinha erguido tijolo por tijolo ao longo dos últimos meses.
A conversa fluiu como um rio calmo. O sarcasmo que eu costumava usar como defesa acabou por definhar. Percebi que estava sendo honesta, talvez honesta demais. Compartilhei visões sobre a vida, sobre o cansaço das metrópoles, sobre o desejo latente de algo mais autêntico. Ele me ouvia com uma atenção que me deixava vulnerável, sem o julgamento ou a pressa de quem quer apenas concluir uma tarefa. Por momentos, o silêncio entre nossas falas não era desconfortável, mas carregado de uma eletricidade nova, um reconhecimento súbito de que duas pessoas podem habitar o mesmo mundo e, por puro acaso, descobrirem afinidades enterradas sob a rotina.
Ficamos ali até que o bar estivesse quase gelado, o fogo morrendo em brasas. Havia uma tensão no ar, um sutil e perigoso equilíbrio entre o que é profissional e o que é puramente instintivo. A forma como ele sustentava meu olhar, a maneira como ele inclinava o corpo na minha direção, tudo ali gritava que a fachada corporativa tinha caído, deixando expostas as nossas fragilidades mais latentes. Eu sentia uma estranha atração, uma vontade de explorar aquele terreno desconhecido que o Ricardo se tornara naquela noite de frio intenso.
Na segunda-feira de manhã, o retorno foi um exercício de silêncio forçado. Entramos no ônibus fretado e, por uma conveniência ou desvio do destino, sentamos lado a lado. Ele adormeceu quase instantaneamente, a cabeça pendendo suavemente em direção à janela. Eu passei as horas da viagem observando o teto do veículo, meus pensamentos em um redemoinho. O que havia acontecido na pousada? Teria sido apenas o vinho, o frio, a atmosfera bucólica de Campos, ou eu tinha, finalmente, enxergado algo que estava ali o tempo todo, escondido por trás da sua eficiência irritante?
Chegamos à empresa sob a luz cinzenta da rotina de São Paulo. A realidade nos atingiu como um banho de água fria. Quando ele enviou aquele primeiro e-mail da semana, recheado com três pontos de exclamação em um único parágrafo, senti um solavanco no peito. Era o mesmo homem, a mesma comunicação, mas eu não era mais a mesma mulher. De alguma forma, a sinergia que ele tanto pregava nas reuniões agora parecia ter ganhado um significado novo, muito mais pessoal e perigoso.
Respondi ao e-mail colocando toda a equipe em cópia, concordando prontamente com cada ponto que ele levantara. Fiz isso com uma rapidez quase automática, uma cumplicidade silenciosa que apenas nós dois podíamos compreender. Enquanto digitava, senti um calor subir pelo rosto. Ele era irritante? Talvez. Ele usava exclamações demais? Sem dúvida. Mas agora, a cada vez que seu nome aparecia na minha caixa de entrada, o coração saltava uma batida. Estou em um terreno perigoso, brincando com um mistério que começou entre taças de vinho e que, agora, insiste em permear cada segundo da minha vida profissional. E o pior de tudo é que, no fundo, eu não quero que esse jogo acabe.
