Quando eu tinha vinte e poucos anos, o mundo parecia um palco montado exclusivamente para o drama. Eu carregava comigo a convicção absoluta de quem acredita que o amor só é verdadeiro se vier acompanhado de trovões, tempestades e gestos grandiosos. Minha lista de exigências era um roteiro de cinema: eu queria que ele surgisse sob uma chuva torrencial, com o cabelo molhado e um olhar desesperado, provando que o mundo parava apenas para nos ver colidir. Eu buscava intensidade, buscava o choque térmico das paixões que consomem e destroem. Aos vinte, o silêncio me parecia vazio. A estabilidade me soava como um sinônimo de tédio.
Mas o tempo, esse mestre implacável, tem um jeito peculiar de rearranjar nossas prateleiras internas. Aos trinta e oito anos, após um casamento que encerrou seu ciclo com a dignidade possível e algumas outras histórias que se dissolveram como fumaça antes mesmo de ganharem contornos definidos, entendi algo fundamental: o desejo é um bicho muito mais quieto do que eu imaginava. Ele não ruge, ele sussurra. Ele não chega de supetão, ele se instala nos vãos da rotina como quem volta para casa.
Foi assim que conheci o Tiago. Não houve trilha sonora orquestrada nem o cenário dramático que minha versão mais jovem exigia. Ele chegou em uma tarde comum de terça-feira, em um bar sem qualquer pretensão, daqueles com luz baixa e cadeiras de madeira que balançam levemente. Estávamos em São Paulo, o movimento da rua lá fora parecia um borrão cinzento de trânsito e pressa, enquanto lá dentro, o ar parecia ter se tornado subitamente denso, carregado de uma eletricidade que não vinha de luzes ou flashes, mas da nossa própria gravidade.
Tiago não trouxe flores nem grandes declarações de intenção. Trouxe um papo sobre séries de televisão, daqueles que começam despretensiosos e, sem que a gente perceba, mergulham nas águas profundas de quem somos quando ninguém está olhando. Falamos sobre medo, sobre as coisas que tentamos esconder debaixo do tapete da rotina e sobre como a vida, muitas vezes, é apenas o intervalo entre as nossas expectativas e a realidade que nos atropela. Ficamos três horas sentados, com as mãos repousadas sobre a mesa, distantes o suficiente para manter a educação e próximos o bastante para sentir o calor que emanava um do outro.
Quando me levantei para ir embora, algo estava mudado. Ao caminhar até o carro, notei que tinha falado mais naquela tarde do que nos últimos meses inteiros. Havia algo de curativo em ser ouvida por ele. Ele não tentou consertar meus problemas, não tentou me convencer de nada. Ele apenas estava ali, entregue à conversa, com os olhos fixos nos meus como se houvesse um tesouro escondido em cada frase que eu pronunciava. Descobri, naquele momento, que era exatamente isso que me movia agora.
O que eu quero aos trinta e oito não é mais a chama que queima tudo ao redor. Eu não procuro mais o incêndio. O que eu procuro, com uma fome silenciosa e madura, é a presença. A capacidade de um homem de sentar-se diante de mim, em uma tarde de terça, e fazer com que o relógio perca o seu sentido imediato. Alguém que não precise provar nada, que não precise subir em telhados ou gritar meu nome na praça. Apenas alguém que fique. Alguém que saiba o peso do silêncio e o valor de uma conversa honesta enquanto tomamos um café requentado em um ambiente sem glamour algum.
Parece simples, quase básico, mas não é. O mundo está cheio de gente que quer ser vista, mas vazio de gente disposta a ver. Quando o Tiago me olhou, senti que ele me via. Não a mulher que eu tentava fingir ser para o mundo, mas aquela que ainda guarda as cicatrizes das batalhas que lutei e dos amores que deixei partir. Ele me olhava com uma calmaria que era, em si mesma, uma forma de sedução muito mais poderosa do que qualquer conquista fugaz.
Não sei o que o futuro guarda para nós. A vida não nos deve garantias e, honestamente, descobri que gosto da incerteza. Gosto de não saber se vamos durar, se seremos um capítulo ou o livro inteiro. O que importa é que ele tornou aquela terça-feira um marco. Ele a transformou no melhor dia da semana apenas pelo fato de ter decidido estar ali. E quando você encontra alguém que transforma o ordinário em extraordinário com apenas um olhar, você sabe que não se trata apenas de sorte. É reconhecimento. É o encaixe de duas almas que, cansadas de procurar por grandiosidades, encontraram na quietude a forma mais sublime de se pertencer.
