O fim de tarde sobre o canal vestia-se de um cinza aveludado, tingido pelos últimos resquícios de um alaranjado tímido que lutava contra o horizonte. Eu estava parada na amurada da balsa, sentindo o vento úmido e cortante do mar contra a pele, um sopro que trazia consigo o aroma profundo do sal misturado ao óleo diesel pesado das máquinas. O movimento rítmico da embarcação sobre as águas agitadas criava uma hipnose natural, um balanço que parecia desconstruir o tempo e me levar de volta a lugares onde deixei fragmentos de quem eu costumava ser. Foi então que, sem aviso prévio, a atmosfera mudou. Um vulto se aproximou, e o espaço ao meu lado, antes preenchido apenas pela brisa, foi ocupado pela presença inconfundível de Lucas.
Lucas era o nome que, durante anos, eu guardei no sótão da memória, uma cicatriz emocional que, de tão bem cuidada, tornou-se parte da minha própria identidade. Quando nossos olhares se cruzaram, a surpresa foi como um choque elétrico, paralisando os batimentos por um segundo antes de acelerá-los para um ritmo desconhecido. Ele continuava com o mesmo olhar perscrutador, uma íris escura que parecia devorar as entrelinhas de cada palavra que eu ainda não havia dito. Entre nós, a química que definira nossa juventude nos bancos da faculdade não havia se dissipado; ela apenas se transformara, ganhando a densidade de quem já conhecia a dor da ausência.
Segurávamos copos de café descartáveis cujas tampas mal escondiam o calor que emanava, uma tentativa banal de aquecer as mãos diante de um clima que pedia proximidade. Conversamos sobre coisas superficiais, sobre o curso que a vida tomou, mas cada frase dita era uma máscara para o que realmente pulsava sob a pele. A nostalgia, aquela névoa densa que envolve os amantes que se perderam no caminho, flutuava entre nós com a mesma consistência da bruma que subia do canal. Era evidente que o que poderíamos ter sido nos assombrava, uma versão alternativa de nós mesmos que dançava no vazio deixado pelas promessas nunca cumpridas.
O momento de ruptura aconteceu de forma quase coreografada. Ao gesticular para apontar algo no horizonte, meus dedos tocaram acidentalmente o metal frio da amurada, e a mão dele, que repousava no mesmo lugar, encontrou a minha. Não houve recuo, nem o pudor típico dos estranhos. Houve uma eletricidade quase tátil, uma corrente galvânica que percorreu cada centímetro da minha coluna e fez com que o mundo ao redor perdesse subitamente o foco. As luzes da cidade, que começavam a se acender lá longe, tornaram-se borrões irrelevantes diante da intensidade daquele toque.
Sem que uma única palavra fosse trocada, um entendimento silencioso se estabeleceu entre nós. Ele, com a mesma elegância impulsiva de outrora, fez um gesto com a cabeça em direção à escadaria. Descemos em um ritmo que flertava com a urgência, deixando para trás o convés superior e a civilidade da multidão. O convés inferior, um labirinto escuro e isolado onde os veículos descansavam entre as vigas de aço, tornou-se o nosso refúgio. O som ensurdecedor dos motores da balsa, uma vibração constante que subia através do metal abaixo de nossos pés, funcionava como o isolamento acústico perfeito para o nosso segredo.
Ali, na penumbra absoluta daquela estrutura industrial, ele finalmente se aproximou, sua presença ocupando todo o espaço disponível entre nós. A pressão contra a parede de metal foi firme, um convite que eu não tinha o menor desejo de declinar. A penumbra parecia ocultar nossas hesitações, deixando exposta apenas a crueza do desejo que, durante anos, foi alimentado pelo silêncio. Quando nossos lábios se encontraram, o gosto salgado do mar que trazia nos lábios misturou-se à doçura agridoce de um reencontro tardio.
Foi um beijo que desafiou a geografia do canal, uma busca incessante por preencher as lacunas que o tempo criou. Suas mãos, firmes e seguras, traçavam o contorno dos meus ombros, como se tentasse mapear uma distância que ele temia ter esquecido. Cada toque era um pedido de desculpas e, simultaneamente, uma reclamação de posse. A urgência daquele momento não era apenas o reflexo de um reencontro casual; era a descarga de uma energia acumulada, um desejo guardado em caixas lacradas por dilemas acadêmicos e escolhas profissionais que, naquele instante, perderam qualquer valor.
Eu podia ouvir minha própria respiração descompassada fundindo-se ao ruído mecânico do motor, um ritmo que nos isolava do resto do mundo. Ali, entre carros parados e sombras de ferro, eu não era mais a mulher contida e ponderada que caminhava pelos corredores da vida. Eu era apenas o eco daquela jovem que se apaixonara por Lucas, uma versão que ainda acreditava que o amor poderia ser a única bússola a nortear um destino. O metal frio da parede contrastava com o calor abrasador que emanava de nós dois, criando uma dualidade que, de certa forma, resumia tudo o que éramos: frios por fora, mas incendidos por uma paixão que nenhum canal ou corrente poderia extinguir.
O tempo, que costuma ser implacável com os amantes, pareceu estagnar naquela travessia. Eu perdia a noção de quantos minutos nos restavam antes da balsa atracar e o mundo real exigir o nosso retorno. Aquilo não era apenas sedução; era uma exploração de sentimentos que nunca foram devidamente enterrados. Era como se estivéssemos lendo um livro que deixamos pela metade, descobrindo que, apesar das novas páginas escritas por cada um, o clímax da história ainda nos esperava em um convés escuro, sob o ruído de uma travessia marítima que, ironicamente, nunca terminava de fato.
Senti sua mão roçar levemente meu pescoço, enviando arrepios que desciam em cascatas. Não havia hesitação em seus gestos, apenas uma certeza absoluta de que, mesmo após anos, ele ainda sabia exatamente onde cada toque causaria o efeito desejado. Aquela conexão, que muitos chamariam de coincidência, era na verdade uma força da natureza, uma atração gravitacional que nos mantinha presos um ao outro apesar das distâncias que percorremos. A urgência aumentava, e eu percebi que não queria que aquele momento tivesse um fim, que a balsa continuasse navegando para sempre por aquele canal, mantendo-nos naquele limbo privado onde o passado e o presente se fundiam em um único beijo.
Quando finalmente nos afastamos, mantendo apenas a testa encostada na do outro, o ar ainda parecia denso, carregado com a eletricidade da nossa interação. A balsa já começava a reduzir a velocidade, aproximando-se da margem, um sinal de que a realidade, com suas responsabilidades e dilemas, voltaria a bater à porta. Lucas me observou com uma expressão que misturava satisfação e uma ponta de melancolia. Ele sabia, assim como eu, que tínhamos aberto uma porta que não poderia ser facilmente fechada. O que aconteceu na penumbra daquele convés não era o fim de um capítulo, mas o início de algo muito mais complexo e, talvez, ainda mais perigoso do que a nossa paixão original.
Subimos as escadas de volta ao convés superior, o vento do mar agora parecia mais frio, mas eu não sentia a temperatura. A pele ainda ardia, uma marca invisível do toque que havíamos compartilhado. A balsa atracou com um solavanco surdo, o som metálico das amarras sendo presas rompeu o encanto de nossa bolha. As pessoas ao redor começaram a se movimentar, apressadas, alheias ao drama silencioso que acabara de ser protagonizado em um canto esquecido daquela embarcação.
Eu não olhei para trás quando descemos. Não havia necessidade. O que havia entre nós estava gravado em cada batimento, um segredo compartilhado que agora pertencia ao mar. A travessia do canal havia acabado, mas a jornada, aquela que prometemos não cumprir anos atrás, parecia estar apenas recomeçando sob uma nova luz, mais madura, mais intensa e, acima de tudo, inevitável. Enquanto caminhava para a saída, senti seu olhar nas minhas costas, uma âncora que me prendia àquela balsa mesmo quando meus pés já tocavam o solo firme da metrópole. O destino havia dado a sua cartada, e eu, pela primeira vez em muito tempo, estava pronta para jogar.
